Territórios do personator (metapersonagem)


PRIMEIRO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (Era uma vez um medo desejante)
[ator em cena, parece buscar em seu corpo uma expressão que o represente, que o territorialize nesse momento, balbucia palavras quase irreconhecíveis. É uma busca por território, por sentido. Ao fundo, escuta-se em off vozes femininas, com as falas iniciais de Perdoa-me por me traíres. Ao ouvir as vozes, o ator vai encontrando em seu corpo a forma primeira do personator/metapersonagem. Ri, gargalhadas intensas e frenéticas, até se compor completamente]: - Medo, medinho medonho, por quê entraram aqui? Eu mesmo, eu não entro. [manhoso] Mas entro, eu entro, mas logo saio. Entro metadinha. Tudo bem, só a cabecinha, pra espiar, mas saio. [pausa] Eu sei que você tem vontade [retira do bolso um pote de bolhas de sabão e começa a soprá-las] Ser ou não ser, eis a questão [sapateia e tenta estourar as bolinhas de sabão com os pés, é um movimento prazeroso]. Um dia eu, lá pelos meus [blablação] anos, uma coleguinha me convidou pra matar aula. Convite formal e tudo. Eu tinha vontade, mas antes de dizer sim, ouvi aquela voz que me impedia de seguir [uma voz rouca e grutal] você foi à aula ontem, [blablação]? Então eu não entrei nessa, o medinho me meteu. Não fui, eu juro que não fui. Sim, a aula eu fui, eu juro que não fui a outro lugar mamãe, te pido, cree em tu hijo! E hoje eu faço isso, mato bolinhas de sabão como se fossem aulinhas de sapateado. [Sapateia enquanto mata bolinhas de sabão. Para de repente, muda-se de plano. Desterritorializa o personator para dar continuidade à cena original de Perdoa-me]

SEGUNDO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (Conversa de botas batidas)
Estou ouvindo, sim. Mas não é bem por aí. Nem por aqui, sai! Olha, agora você tem que escutar. Ouvir direitinho tudo que eu tenho pra dizer. Eu não te amo mais. Como assim está surpreso? Eu postei todas as pistas nas legendas das fotos do instagram. Eu sei e entendo seu lado, mas não faz sentido essa vontade que você tem de ficar. Você mesmo que falava do budismo, que amar não tem nada a ver com prender. Por quê quer me prender aqui então? Ah, sim, claro, você só é budista de segunda a sexta e hoje é sábado?! Eu sei que ontem mesmo eu disse que te amava, mas eu não estava em mim. Não é que eu te ame, eu só bebo demais às vezes... Sem contar que a culpa é toda sua por ter toda essa... essa.. essa malemolência budista na cama, no banheiro, na sala, no banco de trás do carro, na escada de emergência, no quarto de hospedes da sua mãe, no banheiro daquela festa chata que só tocava eletrônica com o pessoal do trabalho. Mas agora acabou. Adios. Acabou porque não só de malemolência se vive. Você com esse seu papinho de segunda a sexta budista, com toda essa parafernalha de amor livre, deixe ir deixe vir, só me enganou. Vinha e ia quando você bem queria. E eu que amava de verdade. Ligava, mandava e-mail, flores, dedicava música. Sabe [blablação], eu cansei. Você deveria mesmo era fazer uma ligaçãozinha pra Freud e bater um papo sobre essa sua necessidade surreal de ter controle sobre tudo e todos. É, isso mesmo, ligação pra freud. “Alô Freud, sou um possessivo que quero tudo para mim, talvez tenha sofrido uns traumas na infância e agora quero alguém pra ser minha mãe-amante. Ah, sim, complexo de Electra talvez. Olha Freud, será que tem solução?” Sinceramente, eu acho que pra você não. [acende um incenso] O que é isso? Um incenso anti encosto pra ver se você some daqui de uma vez.

TERCEIRO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (La muerte)
Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava... (risos macabros) yo mandaba viajar.. Você sabe, ir pro além, visitar os que já foram, bater as botas. E não, não é que eu deseje a morte de alguém, pelo contrário, eu desejo é o sossego. Mas às vezes pro sossego chegar alguém tem que, bem, você sabe (faz arminha com a mão), tá ok? [olha fixamente para o além, começa a sorrir, tique no olho] lá vem a noiva, toda de preto, o véu no rosto, e uma foice que dá medo. [riso transloucado, começa a chorar]. Eu não quero ir, ó [blablação] sem você eu não quero ir. Ela está mais perto, ó dramaturgo que agora me escreve, pare agora essa peça para que, ao menos, eu consiga me despedir de todos antes que a lâmina fina e afiada de noiva morte me acerte e me leve para onde eu não sei nem chegar. [congela, um tempo depois só personator se descongela, alegre]. Obrigado dramaturgo [ri frenético]. Você, você mesmo, te faço uma proposta. Conheço um lugar lindo, é longe, mas é lindo, é um campo verde, o céu muito azul, tudo é perfeito. Há uma casa linda e nunca há sofrimento, nem dor, só alegrias e... você bebe? Você vai amar então! Você quer conhecer esse lugar, todo seu? Basta que você se levante, me dê sua cadeira, basta isso e o paraíso pode ser seu. Você faz boas ações? É uma coisa importante. Você quer essa casinha perfeita? Só se levantar agora. [personator senta na cadeira]. Dramaturgo pode continuar. [tudo volta ao normal]. Lá vem a morte toda de preto, o véu no rosto com uma foice que me dá medo. Vai te pegar haha, vai te pegar haha. [Riso macabro, frenético, as luzes se apagam].

QUARTO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (sofrência cult)
[começa com a música Besame mucho, personator dança consigo]. Eu te quis de um jeito que nunca quis nem a mim mesmo. Ah [blablação] como eu queria te ter e te beijar e te abraçar e acordar domingo de manhã pra dizer “bom dia meu bebê, te amo meu bebê”. Só eu sei quantos contos da Clarice Lispector eu li desejando te mandar áudios no whatsapp, pra compartilhar tudo aquilo que eu não entendia, mas que sentia profundamente. Igual aquele livro que você me deu que eu lia e lia e lia e lia e não entendia nada, mas pra você dizia entender tudo e quando você falava sobre todas aquelas teorias freudianas por trás da obra eu só balançava a cabeça. [dá um tapa na própria cara] você tem que parar com isso! [mais um tapa] Mas eu não consigo! [começa a sentar] aquele beijo, aquele peitoral, aquele modo de falar de Dostoievski, aquele jeito de me fazer uivar na cama e depois da transa ler um pouco de O lobo da estepe. Eu não consigo me controlar [uiva, chora, se bate, uiva, chora, se bate, como um relembrar pelo corpo, depois de algumas repetições – pode-se acrescentar frases, trechos no meio dessa partitura – levanta-se e volta a dançar tango consigo mesmo].

QUINTO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (o medo)
Personator na busca de incorporar seu animal interior. Tudo se dá no corpo – voz, gestos, movimentos. Busca incorporar esse seu lado animal, cão, lobo, cobra, homem. De tempos em tempos enche bexigas, as estoura de diversas formas, as usa para procurar e produzir esse animal. Uiva, late, grita, dá discurso do (des)presidente, falas, falácias, verdades, cocoroca, tenta voar e fracassa, etc. etc.

SEXTO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (o dentro do dentro da verdade)
Eu ando pela rua observando os homens. Para ser mais específico, para suas caras e suas malas. Imagino a noite que poderia ter com cada um, ali, nós três. Eu, a cara e a mala. Hora dentro a cara, hora dentro a mala. Dizem que o cu é o lugar onde se encontra o inconsciente. Fico pensando nesses homens, em dizer a eles: desvenda, descobre, interpreta meu inconsciente. Mas me detenho no sorriso. A sedução, no fim, é o que importa. Só que quando chego em casa, quando abro algum livro para ler, paro depois da terceira página e penso: e suas vidas? O que me interessa mesmo nos homens é desvendar toda essa casca de masculinidade. Eu quero é a fragilidade deles, descascar essa cebola (e de brinde a banana), quero saber o que existe dentro do dentro do dentro. O real inconsciente. Terapia sexual em busca das camadas mais profundas de uma masculinidade. Os homens... Gosto de ouvir suas histórias. Do filho, do pai.. do... Uma vez saí com um homem que me contou sobre seu ex marido. Morreu tem pouco mais de um ano. Por trás dos homens existe uma vida, sabia? Vida misteriosa que nem eles sabem direito e é aí que eu me divirto. Eu gozo é nas fragilidades, é quando a vida pulsa e o corpo vibra. Pirlimpimpim, essa é a verdade. Eu não gosto de homem, eu gosto só de revirar o dentro e o fora e ter a certeza: ninguém de verdade é homem, o homem não existe. O que eles são então? E eu que sei? Borboletas num jardim de margaridas, talvez.

SÉTIMO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (The Secret)
[pose de presidente, de discurso, dessas coisas que atraem o público e o emociona] I have a dream. Eu sonho com o dia em que tudo será sereno. Em que tudo será cristalino. Em que o canto dos pássaros será importante. I have a dream. Eu tenho um sonho. Um sonho de ir para uma fazenda, adotar uma vaquinha chamada mimosa e com ela dialogar sobre a existência. Eu acredito que mimosa é uma boa ouvinte e sempre concordará com minhas inquietações. Já ouvistes vaca falar? Sempre concordando com seu “muhhn-muuhn”


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