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Retratos autootografados (parte 1 ou a busca por um território daquilo que sou sem ser)

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Tio Raimundo em diálogo com mãe de Glorinha Tio Raimundo enfurecido com a recusa de mãe de Glorinha Glorinha lembrando-se dos ocorridos do carnaval passado Glorinha no momento exato em que sua amiga cai na sombra da morte Tio Raimundo após tomar veneno e perceber que ia morrer sem Glorinha Glorinha felicíssima após Tio Raimundo beber veneno Eu, eu mesmo brincando com as personas Tio Raimundo após beber veneno

Carta a Nelson Rodrigues: viva as bobagens!

Olá Nelson, Estava assistindo uma entrevista sua e fiquei, por um momento, espantado. Saber que suas inspirações partem mais da literatura que do teatro me causou tremenda euforia. E me fez pensar um tanto em como às vezes o campo das artes é chato. É, isso mesmo, chato. Toda essa questão de profundidade... Toda essa tentativa de querer atingir um estado de transcendência, um estado de culto-transcendente-artista-contemporâneo... Isso me cansa. Um dia desses estava assistindo um vídeo de um tal workshop e em determinado momento do exercício, os atores começaram a fazer umas caras de dor e uns movimentos de, aparente, intensidade e do nada começaram a cantar caetano veloso, aquela música dor de estômago de fim de relacionamento. Ai Que Preguiça. (deveríamos querer ser menos artistas...) E são nesses momentos que você me conforta. O negócio é como a gente fricciona as realidades, os mundos. Como se trabalha com as poéticas em tentativa de unir-nos aos outros e não ficar preso n...

Territórios do personator (metapersonagem)

PRIMEIRO TERRITÓRIO DO PERSONATOR (Era uma vez um medo desejante) [ator em cena, parece buscar em seu corpo uma expressão que o represente, que o territorialize nesse momento, balbucia palavras quase irreconhecíveis. É uma busca por território, por sentido. Ao fundo, escuta-se em off vozes femininas, com as falas iniciais de Perdoa-me por me traíres. Ao ouvir as vozes, o ator vai encontrando em seu corpo a forma primeira do personator/metapersonagem. Ri, gargalhadas intensas e frenéticas, até se compor completamente]: - Medo, medinho medonho, por quê entraram aqui? Eu mesmo, eu não entro. [manhoso ] Mas entro, eu entro, mas logo saio. Entro metadinha. Tudo bem, só a cabecinha, pra espiar, mas saio. [ pausa ] Eu sei que você tem vontade [retira do bolso um pote de bolhas de sabão e começa a soprá-las ] Ser ou não ser, eis a questão [ sapateia e tenta estourar as bolinhas de sabão com os pés, é um movimento prazeroso ]. Um dia eu, lá pelos meus [ blablação ] anos, uma coleguinha me ...

Carta a tio Raimundo [ou a carta destinada a muitos homens que conheço e para outros que nem conheço tanto assim]

Não quero te dar olá. Sinceramente, Raimundo... Estou decepcionado contigo. Não sei sem como começar essa carta. A vontade que tenho é te xingar todinho. Quer saber? É isso que vou fazer para iniciar Olá, boboca chatão cabeça de peixe feio feioso sem graça besta besta seu bobão sem graça cara de pastel bocó chatolino paspalho Ah, esse você não vai aguentar e vou te fazer cho-rar: Você é um TCHONGO! Eu não tenho muita paciência pra homem assim igual você: mentiroso, salafrário, farsoso. A cara nem treme, né?  Tá vendo, eu nem consigo escrever bem escrevendo pra você. Nem a língua portuguesa consegue se materializar bem perto de você.  Como você dorme a noite? Acha certo fazer chantagem com uma mulher só pra ela ficar com você? E quando ela não fica nem a pau por ser SENSATA e não querer, você a acusa de tudo que VOCÊ fez e ainda dá veneno pra ela? Raimundo... eu vou ligar pra polícia agora mesmo, se prepara que essa carta vai chegar é pela pol...

Não chegou carta, o correio entrou de greve. Movimento teórico #01: o corpo vibrátil

Já a segunda capacidade, subcortical, que por conta de sua repressão histórica nos é menos conhecida, nos permite apreender o mundo em sua condição de campo de forças que nos afetam e se fazem presentes em nosso corpo sob a forma de sensações. O exercício desta capacidade está desvinculado da história do sujeito e da linguagem. Com ela, o outro é uma presença viva feita de uma multiplicidade plástica de forças que pulsam em nossa textura sensível, tornando-se assim parte de nós mesmos. Dissolvem-se aqui as figuras de sujeito e objeto, e com elas aquilo que separa o corpo do mundo. Desde os anos 1980, num livro que acaba de ser reeditado , chamei de “corpo vibrátil” esta segunda capacidade de nossos órgãos dos sentidos em seu conjunto. É nosso corpo como um todo que tem este poder de vibração às forças do mundo. ( Suely Rolnik in Geopolítica da cafetinagem, 2006 ) Mesmo que tenhamos tratado, a maior parte do tempo, de uma produção dramatúrgica, não estivemos longe...

Carta à Glorinha: Capitu perdeu o lugar e você correu para se sentar.

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texto original escrito à mão. Acervo pessoal, 2019. Querida Glorinha, Sinceramente eu acho que você tem medo de amar. É isso mesmo, medo de amar. Toda essa história de medo do teu tio, pra mim, não funciona. Explico-me melhor, tem medo de amar a você mesma. Pelo que vi dessa tua entrada no texto de Nelson, há um desejo latente dentro desse corpinho ainda em formação. Desejo que no carnaval se liberou, mas e no restante dos dias? Tudo que muito se acumula uma hora transborda, hein.  Se eu fosse você, eu teria entrado de uma vez e depois fazia a cena mais cínica, mais debochada, caso titio descobrisse: "eu? Nunca, único lugar que estive foi a escola. Estu-DeI muito. Física, química, linguística, arte contemporânea, educação física dos corpos, o bê-a-bâ do seu-mestre-mandou . E ainda merenDeI ."  Glorinha... Você realmente gosta desse nome no diminutivo? Bobo, bobo. Mas te entendo... É uma máscara, não é? Eu sei, parece que estou te julgando, te condenand...

Carta de abertura: Nelson, eu te perdoo

Nelson,  Descobri que nesses últimos tempos você tem sido odiado pelas pessoas. Não posso ser hipócrita e dizer que sei o que é passar por isso, pois sou perfeito , intocável , inteligentíssimo .  Há umas semanas atrás estávamos Jacques Derrida e eu tomando um caldo de cana, aqui mesmo em Ceilândia, lá na pastelaria do centro, onde te vi pela primeira vez e me encantei. Ele me contou o quanto você é tachado de machista , homofóbico , classista , homem pederasta e como todos e todas e todes e todxs e tod@s e todeiax@ns estão repudiando o estudo e montagem de seus textos. Até mesmo Vestido de Noiva foi jogado no rio do julgamento e da condenação. Confesso que ri um pouco, oras, você, o homem controverso do teatro brasileiro, ícone de loucura e sanidade, que revelou toda uma porcalhada que acontecia no leito da família tradicional brasileira, oh Nelson, logo você que sempre riu de tudo isso e não decidiu ficar calado, logo você que escreveu A mulher sem pecado, Beijo...