Carta de abertura: Nelson, eu te perdoo
Nelson,
Descobri que nesses últimos tempos você tem sido odiado pelas pessoas. Não posso ser hipócrita e dizer que sei o que é passar por isso, pois sou perfeito, intocável, inteligentíssimo.
Há umas semanas atrás estávamos Jacques Derrida e eu tomando um caldo de cana, aqui mesmo em Ceilândia, lá na pastelaria do centro, onde te vi pela primeira vez e me encantei. Ele me contou o quanto você é tachado de machista, homofóbico, classista, homem pederasta e como todos e todas e todes e todxs e tod@s e todeiax@ns estão repudiando o estudo e montagem de seus textos. Até mesmo Vestido de Noiva foi jogado no rio do julgamento e da condenação.
Confesso que ri um pouco, oras, você, o homem controverso do teatro brasileiro, ícone de loucura e sanidade, que revelou toda uma porcalhada que acontecia no leito da família tradicional brasileira, oh Nelson, logo você que sempre riu de tudo isso e não decidiu ficar calado, logo você que escreveu A mulher sem pecado, Beijo no asfalto, Toda nudez será castigada, Viúva porém honesta, Perdoa-me por me traíres, Valsa nº7.... e tantos outros... tantos outros... ... Homem real do teatro foste tu!
Ri mais ainda pois, um dos principais mandamentos do Teatro Contemporâneo, pós-pós-popopopopoposssss perfomativo dramático existencial - e você sabe, essa é a tendência mais atual, mais perfeita, mais comentada e mais desejada por todos e todas e todes e todxs e tod@s e todeaxvc@#$*&¨%s - é exatamente não julgar ou apontar defeitos, o negócio é experimentar. Assim diz o mandamento: "Sejais sábios e sábias e sábies. A sabedoria não julga, ela espera. Estejam abertos à experiência, ide e experimentais." Palavras de Jesus Lehmann.
No meio de meus risos nervosos, Derrida segurou minhas mãos e disse: tu tens uma missão. Essa missão é des-cons-tru-ir. Nelson realmente é tudo isso, mas não se encerra nisso. Olhe para o horizonte, Igor, o que vê?
Gargalhei, aiaiaiai, Derrida sempre engraçado. Mas respondi: "vejo a possibilidade do infinito!" - emocionamo-nos juntos com tamanha SaBeDoRiA.
Em meio a emoção, Derrida sorriu. Nelson, ele sorriu e me disse: é exatamente isso que Nelson é! Infinidade, sempre o dentro e o fora, o entre, a dobra! Ele estoura o tímpano, faz delirar. Igor, vá! Coma tudo de Nelson e descubra a potência que há neste homem tão controverso. E então saiu serelepe, dançando passos de balé clássico... Paguei a conta e voltei para casa, reflexivo.
Naquela noite, querido Nelson, não dormi. As palavras de Derrida ecoavam na minha mente: “Há na idéia do perdão algo de transumano. O impossível opera na idéia de um perdão incondicional, uma vez que este ... Ele faz o impossível, faz fazer e proporciona o impossível, perdoa (este) que não é perdoável, ável, vel, el, l."
No dia seguinte, eu sabia. Eu precisava te antropofagizar. Comer-te por inteiro e regurgitar sua potência, misturada à minha potência, eu precisava parir-me-te.. Só assim poderia te perdoar no mundo, pelo mundo.
Nelsinho, eu sei que você foi realmente um homem cheio de defeitos, mas também sei que há potência. Por isso, eu vou trabalhar contigo. Com tua obra, eu te aceito, ó Nelson, me deixe conhecer a parte mais oculta de ti. Faço esse pacto contigo e sei que ao escolher trabalhar com você, uma parte de sua infinidade cósmica que hoje participa do mundo, me acompanha, eu sei que me sondas, Nelson, eu sei que sua flâmula está comigo, iluminando pequenos caminhos esburacados que me levam à outra camada dessa cebola cebolinha que sou. Só você me conhecerá melhor que eu mesmo.
Nelson Rodrigues, eu escolhi te amar e por te amar, eu te perdoo.
Com carinho e perdão,
Igor.
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