Carta à Glorinha: Capitu perdeu o lugar e você correu para se sentar.

texto original escrito à mão. Acervo pessoal, 2019.




Querida Glorinha,
Sinceramente eu acho que você tem medo de amar. É isso mesmo, medo de amar. Toda essa história de medo do teu tio, pra mim, não funciona. Explico-me melhor, tem medo de amar a você mesma. Pelo que vi dessa tua entrada no texto de Nelson, há um desejo latente dentro desse corpinho ainda em formação. Desejo que no carnaval se liberou, mas e no restante dos dias? Tudo que muito se acumula uma hora transborda, hein. 
Se eu fosse você, eu teria entrado de uma vez e depois fazia a cena mais cínica, mais debochada, caso titio descobrisse: "eu? Nunca, único lugar que estive foi a escola. Estu-DeI muito. Física, química, linguística, arte contemporânea, educação física dos corpos, o bê-a-bâ do seu-mestre-mandou. E ainda merenDeI." 
Glorinha... Você realmente gosta desse nome no diminutivo? Bobo, bobo. Mas te entendo... É uma máscara, não é?
Eu sei, parece que estou te julgando, te condenando. Parece que estou querendo ditar o que é a liberdade, queimar sutiãs, não casar e todas essas coisas... Mas não é isso, Glorinha. Juro!
Se te digo tudo isso é porque te entendo. Quando eu tinha tua idade, eu era do mesmo jeito, mas permitia uma certa dissimulação. Não gostava de ser Bentinho, queria ser Capitu, capitu que cap(i)tura tudo e todos, tem tudo em suas mãos. 
Ah, Glorinha, sempre gostei daquela frase de Machado de Assis.. Aquela famosa "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". No fundo eu sempre fora dissimulado. Igual a você. 
Agora tudo faz sentido: Glorinha, esse nome é a pura dissimulação. Glorinha: a que sempre faz uma carinha e no fim sempre sai dando uma risadinha. 
Te confesso: minha dissimulação era a idade. Aos 14, enlouquecia alguns, digamos... homens. Nessa mesma época conheci aquele romance de Nabokov, Lolita... 
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta.
Somos nós, Lolitas Brasileñas, Americo-Lolitas. Mas nos silêncios, comemos pelas bordas, rimos com o néctar que escorre. Matamos aqueles pelo desejo.
Eis a melhor parte: não me entregava ou escancarava nesse enlouquecer. Fazia o santo, uma carinha e depois saía dando uma risadinha. No fundo, Glorinha, somos muito iguais. 
Você tem sonho de grinalda, Glorinha? 
Preciso ir agora. Espero resposta em breve. E sim, podemos marcar uma cerveja no Sinucão da 18. Cena cômica: dissimulados tomando cerveja num bar com sinuca e homens enjoados... Eu sei, eu sei, os homens... eles são chatos e é isso que os tornam tão atraentes. Tão chatos que se torna engraçado brincar com eles. Bobos, bobos. 
Até logo, doce-amarga, cínica, debochada, Glorinha.
Com carinho,
Igor.

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