Não chegou carta, o correio entrou de greve. Movimento teórico #01: o corpo vibrátil

Já a segunda capacidade, subcortical, que por conta de sua repressão histórica nos é
menos conhecida, nos permite apreender o mundo em sua condição de campo de forças que
nos afetam e se fazem presentes em nosso corpo sob a forma de sensações. O exercício desta
capacidade está desvinculado da história do sujeito e da linguagem. Com ela, o outro é uma
presença viva feita de uma multiplicidade plástica de forças que pulsam em nossa textura
sensível, tornando-se assim parte de nós mesmos. Dissolvem-se aqui as figuras de sujeito e
objeto, e com elas aquilo que separa o corpo do mundo. Desde os anos 1980, num livro que
acaba de ser reeditado, chamei de “corpo vibrátil” esta segunda capacidade de nossos
órgãos dos sentidos em seu conjunto. É nosso corpo como um todo que tem este poder de
vibração às forças do mundo. (Suely Rolnik in Geopolítica da cafetinagem, 2006)

Mesmo que tenhamos tratado, a maior parte do tempo, de uma produção dramatúrgica, não estivemos longe do corpo. O processo perpassa todo o corpo, escrever é atividade não só da mente, mas do que atravessa esse complexo sistema de órgãos, tecidos, estruturas ósseas, neurológicas, biológicas: o corpo. 
Pensando por essa perspectiva, corpo vibrátil foi um dos conceitos fundamentais para pensar essa tecitura autobiográfica e, ao mesmo tempo, antropofágica.  E esse não foi um caminho fácil. 
Suely Rolnik condena um movimento das últimas décadas de repressão desse corpo. Uma repressão que, segundo a autora, anestesia esse contato outro - e, de certo modo, mais profundo - com o mundo. A partir disso, um primeiro questionamento: como desobstruir as v(e)ias do corpo vibrátil? 

Confesso que não é fácil. É sobre pausar, sobre pousar. Diminuir velocidade. Em algum texto Virgínia Kastrup fala sobre a atenção flutuante, essa atenção que não é a parada total do movimento, mas parada no movimento: beija-flor que bebe água açucarada sem parar seu bater de assas. Ele pousa. E o pousar, o diminuir é complexo, exige paciência, exige ouvir a si próprio, ir escavando vias no próprio corpo para passagem e estadia - provisória - do mundo, de mundos outros, um devir. É um pouco disso, abrir o corpo para um devir. E é aí, nesse delírio que o corpo vibra, vibra na força e de repente me encontro num estremecer que me foge: desterritorialização. Para esse processo, um dos dispositivos criados foi o da leitura, uma leitura atenta, pausada, leitura do texto e do que me cercava. Ler sem pretender entender, ler e deixar tocar, criar fissura, deixar pulsar. Ler com o corpo todo tudo aquilo que Nelson ia tecendo. E como é ler com o corpo todo? É ter atenção no atravessar da matéria. Deixar a anestesia de lado, pouco a pouco. 

Essa relação performativa, existencial com o texto-matéria-vida abre espaço para a coexistência paradoxal da percepção e da vibração do corpo. É nesse coexistir que territórios outros se tornam possíveis, Rolnik assim explica essa coexistência: 
Entre a vibratibilidade do corpo e sua capacidade de percepção há uma relação
paradoxal, já que se trata de modos de apreensão da realidade que obedecem a lógicas
totalmente distintas e irredutíveis. É a tensão deste paradoxo que mobiliza e impulsiona a
potência do pensamento/criação, na medida em que as novas sensações que se incorporam à
nossa textura sensível são intransmissíveis por meio das representações de que dispomos.
Por esta razão elas colocam em crise nossas referências e impõem a urgência de inventarmos
formas de expressão. Assim, integramos em nosso corpo os signos que o mundo nos acena e,
através de sua expressão, os incorporamos a nossos territórios existenciais. Nesta operação se
restabelece um mapa de referências compartilhado, já com novos contornos. Movidos por
este paradoxo, somos continuamente forçados a pensar/criar, conforme já sugerido. O
exercício do pensamento/criação tem, portanto, um poder de interferência na realidade e de
participação na orientação de seu destino, constituindo assim um instrumento essencial de
transformação da paisagem subjetiva e objetiva. 
Criar, portanto, perpassa esse movimento paradoxal. Criar é friccionar as bases, reconstruir, deixar-se contaminar pelo inexistente do mundo, que é existência em outra lógica. Melhoro: criar é ampliar nosso campo de percepção, sensação e entendimento do que é e do que pode ser existente. Pensar o corpo vibrátil é permitir-se entender que tudo, quando vivo no mundo, não é, mas está. E quando em relação, agencia, produz novos territórios. 
Foi essa perspectiva que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa. Sentir com o corpo todo, estar aberto à contaminação do mundo para ampliar o entendimento do que é o (im)possível. 

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